quarta-feira, 11 de junho de 2008

A vida dos nômades

Em 1831, o pintor de paredes Ernst Salomon Hildebrandt faleceu, deixano sete filhos pequenos e quase nenhum dinheiro à viúva, Renate. À época, somente o primogênito herdava os bens da família. Assim o primeiro filho de Ernst receberia o (pouco) dinheor dos Hildebrandt e os outros precisariam lutar pela sobrevivência. Neste cenário, o segundo filho, Eduard, sonhava tornar-se marinheiro, embora a mãe o quisesse artista. Aos treze anos, abandonou sua cidade natal, Danzig (atual Gdansk, na Polônia) e seguiu para Berlin. Lá, começou a estudar pintura Sete anos mais tarde, fazia sua primeira viagem. Visitou Inglaterra, Escócia, Dinamarca e rumou para Paris, onde foi aluno do pintor Isabey. Na capital francesa, seus trabalhos tornaram-se reconhecidos e premiados.

De retorno à Prússia, conhece Alexander von Humboldt, o maior cientista, botânico, astrônomo de todos os reinos de língua alemã. Este viu em Eduard Hildebrandt o futuro da arte prussiana. Por influência de Humboldt, o jovem pintor foi apresentado ao imperador prussiano, Frederico Guilherme IV. O monarca passa, então, a financiar as viagens e a comprar-lhe todas as telas. Essas viagens formam a maior marcha artística já registrada. Somente no Brasil, foram cinco cidades, tendo passado também por Canadá, Noruega, Japão e Hong Kong. O irmão mais novo, Fritz, trilhou um caminho mesno acadêmico. Apesar de ter começado a estudar pintura, logo se tornou marinheiro. Seu trabalho é bem menos conhecido que o de Eduard, mas igualmente respeitado como um bom pintor de motivos marítimos.

Há uma passagem bíblica sobre quatro leprosos condenados a viver fora dos muros da cidade. Caso infringissem a sentença, seriam mortos. Entretanto, estavam morredo de fome, junto à entrada da vila. Então, um deles diz: "Precisamos entrar lá de qualquer jeito. Se ficarmos aqui, morreremos com certeza. Mas, se conseguirmos entrar, teremos comida. E, se nos pegarem, morreremos também." Assim, eles entram na cidade e não são mortos.

O mesmo aconteceu em algum ano do século XIX em uma fria cidade prussiana. Dois irmãos perceberam que, ficando exatamente onde estavam, morreriam. Talvez nao de fome, mas aniquilados por uma existência incompatível com sua natureza. Eles ousaram cruzar as fronteiras de Danzig, buscar a sobrevivência e o sentido da vida longe de casa. E morreram, como todos morrem um dia. Eduard faleceu em Berlim, após uma volta mundo, duas exposições de sua obra em Londre e a publicação de seus diários de viagem. Fritz foi vítima de pneumonia, em Nápoles, Itália. Se o corpo não tivesse cansado antes, teria seguido em direção a Roma. Não foram, nenhum dos dois, super-heróis que mudaram a estrutura do mundo. Mas deixaram um legado artístico para as gerações futuras. Viajaram o mundo "when the going was easy", mas quando viver era tão difícil quanto hoje.

2 comentários:

Anônimo disse...
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Anônimo disse...

adorei o texto. iremos a Berlim conferir a obra de Eduard Hildebrandt pessoalmente.beijos albertina